Sou um diário virtual, um blog de poesias e fotos de Daiane Dordete, que se transformará em um livro ainda em 2011, patrocinado pelo SIMDEC - Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura de Joinville, Fundação Cultural de Joinville e Prefeitura Municipal de Joinville, através do Mecenato Municipal de Joinville de 2009. Modelo fotográfico: Cleiton Jacobs.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

PRELÚDIO A UMA NOITE MORTA

Querido,
Vou beber hoje o meu uísque barato
Vou pôr de novo o meu vestido preto
Comer salmão ao molho asiático
Dançar ao ritmo de um samba-enredo
Embriagada, rolar-me no chão
Queimar as fotos dos meus pesadelos
Lavar a louça do café de ontem
Rever o vídeo do meu casamento
Matar o poodle que você me deu
Cuspir no anel de diamante falso
Rasgar o lenço de seda amassada
Montar meu quarto de bonecas vivas
E dissolver a gelatina lânguida
E dissolver-me num banho salgado
Depois secar a minha púbis negra
E encharcar-me no resto da casa
Despida, crua, olhar-me no espelho
E ver o tempo que marcou a pele
Sentir o vento da janela aberta
Olhar a colcha de linho rasgado
De salto alto, vou deitar na cama
E descoberta, me virar de bruços
Sem travesseiro, a parede nua
Adormecer num sonho corriqueiro.

COISAS

eu tenho tanta coisa pra fazer
tanta coisa pra contar
tanta coisa pra ser e desistir
tanta coisa pra te ver
tanta coisa pra te amar
eu tenho tanta coisa guardada pra te dar
eu tenho tanta coisa pra beijar
tanta coisa pra comer
tanta coisa pra criar
pra construir e destruir
tenho tanta coisa pra viver e morrer
eu tenho tanta coisa pra brigar
tanta coisa pra sofrer
eu tenho tanta coisa pra separar
eu tenho tanta coisa
tanta coisa
eu tenho tanta coisa pra te conhecer
eu tenho tanta coisa pra viajar
tanta coisa
eu
tanta coisa pra te jogar na cara
tanta coisa pra chorar
tanta coisa pra se divertir
tenho tanta coisa pra amar e amar e amar
tanta coisa.
só não tenho você.

PERDIGUEIRA

A cada dia que passa
Mais
E mais eu sou uma pasta
Uma andrógina
Uma vaca
Que pasta.

A massa que corre nas veias
Amassa os órgãos internos
Infernos
Do corpo.

Os fios de lã do cabelo
Presos na pasta externa
Enroscam
Da boca até a pata
Da vaca em pasta que sou.

Amasso o rabo sem forma
E esculpo minhas próprias pernas
E ando apressadamente
Me perdendo terra afora.

Minha pasta misturada
Ao pó dos pés que passam
Forma o lodo
Onde um dia nascerá o pasto
Das próximas.

TALVEZ EU SEJA VAN GOGH

Tenho um girassol amarelo
Pendurado em cima de mim.
É girassol sem pai nem mãe
Mas girassol de muita cor.
E tanto amarelo assim
Aurim
Só pode ser amarelo de dor.

MIMÉTICA

E eu, pisando em paredes ácidas
E eu, comendo corrosivos cínicos
E eu, falando com mesas histéricas
E eu, deixando meus indícios mínimos
E tu, rasgando os pensamentos fúnebres
E eu, lembrando dos ditados célebres
E nós, fazendo origamis físicos
E eu, cortando meu cabelo pálido
E tu, socando nos papibaquígrafos
Os dois, correndo de medo do estático
Ninguém, olhando as expressões tão cálidas
Ninguém, ouvindo as expressões satíricas
E deus, olhando da porta da clínica
E Jó, sem dentes esperando Sílfide
E eu, na praça com meu rosto lânguido
E tu, queimando meu incenso onírico
Ninguém, olhando a fechadura tóxica
Tomé, cobrando o condomínio bíblico
José, tomando meu conhaque sírio
Meu pai, queixoso da inércia orgânica
E eu, cansada das palavras públicas
E tu, querendo um desemprego fixo
Os dois, juntando meios trapos púnicos
Quiçá, bebendo um malibú bucólico
Talvez, cansados de bombas atômicas
Talvez, querendo destruir o lúdico
Talvez, querendo desfruir o híbrido.



CONFINS

Numa linha reta e lisa
Eu desliso
A estrada do meu destino
Onde estradam meus instintos
Felinos

E na curva que se segue
Depois do primeiro cruzamento de almas
O meu corpo vacila
Entre os pés
E as palmas

Estranhos segredos guardados
Das vidas que me cruzaram
Espalmam
Meu perseguido passado

E não lembro mais os porquês
Nem pessoas tempo ou modas
Sigo sem conceitos
Sou ócio

Passo a serra dos desesperos
Perdidos nos meus sentidos
Nas curvas acentuadas
Sou deslize
Aclivo

Derrapo num parapeito
E afundo no lago das mágoas
Acabada num abismo
Sou mais nada

ANATOMIA

Eu só respiro na ausência das palavras.
Quando eu grito, e nada se move,
Aí então é que eu falo.
Eu só choro quando não há ninguém por perto.
Quando, num rasgo de dor, nenhuma alma se comove.
Daí então é que eu choro.
Quando eu escrevo
E não recebo respostas,
Eu canto meus poemas.

quinta-feira, 31 de março de 2011

O AMOR DE SEMPRE

Todo amor
Que é realmente amor
E que como tal, pode ser utopicamente amado
E correspondido
Todo ele é amor de primavera:
Três meses.
Os outros, são só casos mal-contados.